domingo, 14 de março de 2010

O Malungo

Nos meus tempos de criança, lá pras bandas da Mantiqueira, eu tinha um malungo chamado Manuel Candido e que ficou apenas Manézinho. Nós crescemos junto, ele cresceu até certo ponto e depois parou e hoje carcomido pela idade e pelas pingas eu acho que ele descresceu. Muitas coisas vivemos juntos, de estilingue na mão arrebentando peito de passarinhos e apostando quem matava mais, e marcava no gancho o numero de mortes.

Hoje não se faz mais isso. É proibido matar passarinho. Pena terrível para quem matar um passarinho ou ter algum em cativeiro.Se matar, a pena é inafiançável. Ninguém tira da cadeia.

Já matar pessoa, cidadão pai de família a pena é menor e algumas vezes nem cadeia dá. Os homens sabem se defender mas, se você defender sua vida e acabar, por isso, matando o agressor. não há dúvida, você vai para a cadeia.

É que estavam acabando os passarinhos e corria-se o risco de só vê-los em museus..

Gosto de ver os passarinhos na roça, amarelinhos, pretos, pardos,pintados, listados, todo tipo e espécie. Não sei o nome de todos, mas alguns chamo pelo nome: Maria branca, canarinho, pintassilgo, João de Barro, pássaro preto e as terríveis maritacas que devoram a cobertura dos fios de eletricidade e causam curto circuito nas casas. Há! Tem também os Tucanos que devoram os ninhos de qualquer passarinho com seus bicos grossos, longos e ocos.

Um dia encontrei o Manezinho, triste, macabunzio,surumbatico e lhe perguntei o que tinha havido, se era tristeza pela Ilca ou vontade de caçar. Nadim disso, adiantou a dizer. È que hoje a fessora disse que Deus é Beleza e gosta de beleza, por isso a natureza é bonita, os marmelais são suculentos e as pereiras parecem soldados enfileirados para a batalha. E eu, suspirou o tadinho, sou feio, nanico, pobre e com dente podre. Acho que Deus não vai gostar de mim. Fiquei triste com ele, sentado na grama do pasto, olhando sem olhar.Companhia na alegria e na tristeza. Eita solidariedade inocente!

De repente me deu uma idéia.

Você acha que Deus gosta de todos os animais? Ele disse que sim. Então continuei: a égua do Chico Embira é feia e tem um olho cego e Chico gosta dela porque ela é dele. Você é de Deus, num tem olho cego , só dente podre, e Deus num olha na boca da gente como faz o papai quando vai comprar cavalo. Então Deus gosta de você. Pra Deus você é bonito, mesmo sendo feio como um bicho do mato.

Ele sorriu e concordou e a alegria voltou a seus olhos e fomos comer peras nas pereiras de seu Avelino.

Passaram-se quase 70 anos e aumentou muito mais o conceito do amor de Deus. Todos sabemos que para Deus a alma é que tem importância e não o corpo mesmo sendo ele bonito, jovem, sadio e atraente. Deus não amaldiçoa, não é vingativo e nem persegue as pessoas, muito ao contrário, ELE perdoa TUDO, perdoa e esquece as nossas faltas, é muito paciente com a humanidade e não busca os seus próprios interesses. Deus tudo desculpa,basta o homem se arrepender e pedir perdão de suas faltas.

Deus é AMOR intenso e infinito e conseqüentemente, Ele ama por Amar, porque é de sua natureza.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

A Lagartixa apaixonada

O casal de lagartixa morava numa bela casa. Todo o dia percorria as paredes na caça de insetos. As largatixas são muito ágeis e se dependuram nas paredes e tetos porque possuem ventosas nas suas patas ,que funcionam como válvulas de sucção.


À tarde o lagartixo chamava toda a família para contemplarem o por do sol.

Espetáculo magnífico do céu modificado de cores, vestido de vermelho, com luzes brilhantes. O poeta também se encantou com esse espetáculo e escreveu: “esbraseia o ocidente em agonia”. Não há quem fique indiferente a tanta manifestação de beleza. Toda a família de lagartixos ficava de olhos saltados para melhor contemplar e espichava a língua fininha para sentir o sabor das cores. O mais puro sabor penetra pelos olhos.

Nem toda a família estava ali.

Faltava a caçula que tinha medo de alturas e não conseguia subir pela parede.

De início os pais julgaram que era coisa de criança, algo passageiro, que o tempo iria curar. Mas isso não se deu. Titixa crescera, era agora bela adolescente de cauda cor de rosa e sonhadores olhos amendoados.Seus dias eram passados correndo nos rodapés e escondendo-se nos cantos.

Os pais preocupados procuraram ajuda de psicólogos e analistas. Tudo em vão. O mais que aconteceu foi a filha aceitar a situação, acomodar-se com a deficiência e não mais tentar subir. Mas não acabara a preocupação dos pais, nem acabara a incompreensão dos irmãos.

Um dia Titixa estava deitada no rodapé da sala, de olhos vagos no vazio, sem saber pensar e sem saber querer, quando lhe aparece um lagartixo de pernas fortes, olhos agitados numa cabeça bonita, cauda esverdeada e ágil. Era um príncipe como aqueles que sua mãe narrava nos contos à noite .

- Olá.

A voz era tão bela quanto a boca que a pronunciara.

O coração de Titixa saltou dentro do corpo num pulo tão brusco que afogueou sua face e ela corou. Quando a gente está desprevenida o amor bate com força.

Sua resposta foi um sorriso tímido, indeciso e revelador.

- Eu sou Tisto e tenho visto você correndo e se escondendo nas linhas do rodapé que resolvi vir conhecê-la.

O céu pareceu desabar sobre a jovem. Idéias confusas, sentimentos alvoroçados, desejos desconhecidos se misturaram dentro dela. Ainda não sabia que o amor põe tormenta nos sentimentos.

- Muito obrigada. Eu sou Titixa.

Ao falar esticou a língua mais que o necessário e tocou, sem querer, a face de Tisto. Um sol explodiu dentro dela queimando intensamente. O amor alucina e cria dimensões universais. O exercício do amor engravida o universo e ele dá a luz.

Ela quis compreender o que se passara e não entendeu. Quis entender porque o dia se tornou luz e porque a parede parecia o paraíso.

Não sabia que amor e sonho tem razões que não podemos compreender.O amor foi feito para ser aceito e não para ser compreendido. Querer compreender o amor é como querer saber porque a estrela brilha, porque o sol é calor, ou porque a vida é vida. As explicações destroem o encanto e matam a beleza.

O jovem Tisto convidou e ela o acompanhou por uma viagem indescritível. Percorreram todas as paredes, rodopiaram no teto e dançaram ao som da batida de seus corações.

Lá de cima, pela primeira vez, ela contemplou a chegada da noite e se sentiu sufocada e desejou ardentemente que nunca terminasse. O amor põe na gente o sabor de infinito.

Ela perdera os traumas, medos e desassossegos pois o amor tem o dom de libertar, dar nova vida e construir novos sonhos.

Os pais estavam extasiados, os irmãos alvoroçados. O milagre não pode ser compreendido e nem requer explicação. Pais e irmãos foram ao encontro dos jovens, formaram uma corrente de patas unidas e entoaram um solene Aleluia de agradecimento e conforto. O amor coloca paz nos corações.

Titixa estava com os olhos molhados e com medo de falar alguma coisa e acabar o encantamento. Tinha que deixar transformar em eternidade tudo o que aconteceu, pois a Paz era tanta que não cabia em um só momento. Era preciso preservar a emoção e recolher aquele sentimento no núcleo de seu ser.

E ela compreendeu que o amor nos torna livres, que a liberdade está dentro de cada um, que ela não vem de fora, não é imposta . Ela não é parcial. Tem que ser como a fonte de água que brota de dentro da terra para alimentar as plantas e que se torna sangue e faz a vida jorrar em cada ramo.

Liberdade não é poder fazer isto ou aquilo. É compromisso e responsabilidade, è estar aberto aos outros. Não há liberdade sem comunhão. Não é a liberdade que é importante mas sim o que se sente por liberdade. A liberdade foi feita para nós e está dentro de cada um.

A liberdade somos nós.