quinta-feira, 15 de novembro de 2012

SER CAMINHO



                           
                                                 

O Mestre Arobiai olhou com olhos profundos a multidão que se estendia na relva, sob seus pés. Homens e mulheres das mais variadas idades e etnias, crianças e adultos, alguns cansados outros relaxados, todos tinham um único ponto de interesse, seus olhos buscavam uma única fonte de luz que era a figura pacífica, solene e acolhedora do mestre da todas as horas.

A tarde caia calma, com poucas nuvens e refrescada por uma brisa leve e suave que ondulava cabelos e fazia farfalhar as poucas árvores. De olhos profundos fitos na multidão o Mestre falou:





                                                     
A bondade habita em todos os corações, mas muitas vezes é necessário sacudi-la para que ela acorde e se ponha a trabalhar. Certa vez uma menina se perdeu durante a grande festa da padroeira. Ela tinha ido com os irmãos, para apreciar os objetos e utensílios expostos pelos comerciantes em suas tendas e também para se divertir nos carroceis e barcas que embalavam a noite barulhenta. Foi aí, durante o folguedo que ela se perdeu. A chuva caiu, fininha e gelada, uma cortina esbranquiçada no clarão das luzes, e ela correu para se abrigar, e se separou dos irmãos. O corpo frágil ficou encharcado de chuva e perdeu calor e ela tiritava de frio e pediu ajuda e chorou de medo e o sal de suas lágrimas se confundiram como doce da chuva, no seu rosto tenso. Alguém a viu e ofereceu ajuda e quis saber onde ela morava e lhe ensinou o caminho. Siga andando nesta direção, vá em frente sem medo, lá no final da rua vire á direita e ande três quarteirões e em seguida vire a esquerda e você encontrará uma pracinha, pegue a primeira rua à direita e estará em casa. Com passos tímidos, braços cruzados sobre o peito, tremendo e chorando , a menina se pos a caminhar, seguindo o roteiro traçado por seu bem feitor. As luzes da cidade e as luzes dos carros se embaralhavam nas lágrimas que sentiam desespero. Um senhor de meia idade a abordou para saber o que estava acontecendo. Ciente do problema ele tirou seu paletó e colocou no ombro da criança, tomou-lhe as mãos e disse que a levaria até sua casa. A noite acompanhou os dois vultos na rua molhada e os viu chegar na casa da menina.





A multidão ouvia com o silencio daqueles que prestam atenção e se interessam pela história. Então o Mestre conclui. Ambas pessoas usaram de carinho e amor para com a menina, tanto aquela que lhe ensinou o caminho como a outra que a levou para casa. Aquela que lhe mostrou o caminho usou de amor, não há dúvida nenhuma, foi boa e caridosa, no entanto aquela que a levou para casa teve um amor maior, se despojou e foi seu guia. Assim é a vida. Uns nos mostram o caminho e estes são bons, outros caminham juntos e estes são muito bons. Uma coisa é indicar o caminho e outra é SER O CAMINHO.



domingo, 28 de outubro de 2012

A cachaça, o trabalho e o homem







A Cachaça a Deus do Céu

Tem o poder de empatar

Porque se Deus da o juízo

A Cachaça pode tirar



O churrasco rolava gostoso, a saudade bate em retirada quando a cantoria fica mais animada, quando a garganta é molhada com uma pinguinha de boa safra. É coisa de brasileiro o churrasco comemoração e a pinga, pura ou na caipirinha, ou até em outras associações. Já vi sorvete de pinga.

Mas não foi sempre assim. Houve uma época, e isso faz muito tempo, que em Portugal a pinga se chamava cachaça e era sub produto dos bagaços de uvas esmagadas pelos pés, como a graspa que hoje encontramos nas adegas produtoras de vinho, e não era bebida por gente fina. Sá de Miranda, poeta português que faleceu em 1558 registra a cachaça no seu canto às quintas fidalgas lusitanas e Luis da Câmara Cascudo escreve um prelúdio sobre a “água que passarinho não bebe”. Quando se está numa reunião de amigos ou em alguma comemoração a primeira dose é chamada de abrideira, pois ela abre a conversa, é o início da festa, é diferente da saideira, que é a dose de despedida, a que dá o adeus. Uma á a chegada e a outra a saída e entre elas um universo de acontecimentos marca a data. Saint Hilaire, em 1819, afirma que o brasileiro é amante da cachaça, mas não é cachaceiro. No jantar tomar uma dose doméstica da branquinha, pura e envelhecida, de cheiro doce e sabor macio é um ritual que herdamos de nossos antepassados. Só o Brasil sabe apreciar essa especialidade com a certeza de quem conhece o assunto. Os estudiosos dizem que ela teve muitos nomes, adequando-se à sociedade local, igual a gente troca de roupa conforme o clima ou de acordo com a época do ano. Dizem que durante a fabricação do açúcar na época colonial, saia do melaço um vapor que se condensava nos caibros e pingava no chão.Os escravos bebiam desse liquido e se sentiam alegres e animados. Por isso a cachaça também é chamada de pinga.

Mas há uma espécie defeituosa, “ aquela que matou o guarda’, mal destilada, feita sem capricho em alambiques deteriorados, cheia de aditivos perigosos, vendidas nos butecos sujos e nas vendas de beira de estrada. Essa bebida queima como vulcão e explode no estomago provocando azia e arrebenta na cabeça deixando tonto. È dela que Inezita Barroso canta: “ a marvada pinga é que me atrapaia, aqui mesmo eu bebo, aqui mesmo eu caio....” Há quem a tome encostado no balcão e jogando um pouco no chão dizendo que é para o “ santo”, há quem a tome tapando o nariz porque não gosta do cheiro, e há aqueles, ainda, que a tomam por estarem tristes, ou alegres, ou com frio...


                                                       

Não sei porque uma bebida tão cheia de história, tão brasileira, é tomada de qualquer jeito, em butecos sujos e mal afamados, por pessoas que a bebem até cair. Ela devia ser tomada em cálice de cristal, em pequena dose, após um ritual de conversa, com a cerimônia das grandes bebidas. Nunca tomá-la sozinho ou encharcar-se dela. Beber com moderação é a grande arte de quem tem bom gosto.É beber para apreciar e não para se consumir num mar de “fogo”.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O Presente do Índio






Os europeus encontraram a América povoada por um povo de pele bronzeada e olhos puxadinhos. Pero Vaz de Caminha, o primeiro a descrever os índios do Brasil disse que eles eram “ belos, bem feitos, de boas feições e pardos a maneira de avermelhados. Não existia, ainda, o vocábulo bronzeado, a cor trigueira dos freqüentadores do sol. Muitos foram os cronistas e viajantes que descreveram os costumes e o tipo de nossos primitivos habitantes, muito deles impressionados pela liberdade selvagem desses costumes que apresentavam a nudez como coisa natural e espontânea. Caminha narra a surpresa que causou nos navegantes a presença de mulheres ‘ novinhas e gentis, com os cabelos mui pretos e compridos pelas espáduas e suas vergonhas tão altas e cerradinhas, e tão limpas de cabeleiras que, de as muito bem olharmos, não se envergonhavam”. O que para o europeu era tido como vergonha, para o habitante puro e inocente era apenas um comportamento natural e não libidinoso, e o próprio Caminha conclui que eram “ puros e inocentes”.

A liberdade aberta pela lonjura de sua terra e a índia sensual de corpo nu e atraente encorajaram as uniões. E os abusos sexuais. Por essa razão cinco tripulantes desertaram percebendo que a terra era um convite à vida solta em que tudo era permitido.

Paulo Prado no livro Retrato do Brasil, comenta que “ o indígena era um animal lascivo, vivendo sem nenhum, constrangimento na satisfação de seus desejos carnais.”

Américo Vespucio disse que eles “ tomam tantas mulheres quantas querem, e o filho se junta com a mãe, e o irmão com a irmã, e o primo com a prima, e o caminhante com a que encontra..”e faziam isso tão naturalmente que não se pode dizer que era pecado. Aqueles que ocupavam posição de destaque na aldeia, o Cacique, o Pajé, e o melhor guerreiro, costumavam ter quantas mulheres achassem necessárias e freqüentemente as virgens eram propriedades do Pajé. Foi num ambiente assim que chegaram, em 1565, os Padres José de Anchieta e Manoel da Nóbrega, em Iperoig, atual Ubatuba, para negociar a paz com o cacique Cunhambebe chefe dos Tamoios. O nome Ubatuba significa "canoa grande" por causa da canoa em que eles viajaram  para o Rio de Janeiro.   Os franceses, com o apoio desses tamoios, tinham invadido a região do Rio de Janeiro e era necessário que os índios retirassem seu apoio. A paz foi estabelecida, o apoio aos franceses foi retirado, não sem antes o Pe. Anchieta sofrer um cárcere cruel numa cabana na praia, enquanto Cunhambebe e Manoel da Nobrega navegavam para o Rio a fim de negociar os termos da Paz com Estácio de Sá. Foi aí nessa praia de Iperoig  que o padre escreveu, em latim, o Poema a Virgem.
Para se redimir do cárcere e dos maus tratos, o cacique Cunhambebe ofereceu ao Pe. Anchieta a mais nova e mais bela mulher da aldeia, e ficou zangado pela recusa da oferta, e não acreditou nos votos de castidade dos Pajés dos brancos, pois o da tribo podia ter quantas ele quisesse.




terça-feira, 4 de setembro de 2012

QUANDO TENTARAM ROUBAR A SANTA




                                                Foto do arquivo da Fundação ROGE



As duas cidades estão ligadas históricamente. Uma nasceu da outra e portanto são: mãe , Delfim Moreira e, filha, Itajubá. A filha cresceu, prosperou e ficou rica, mas, a mãe está acanhada lá no alto da serra. Houve época em que elas se estranharam, tudo por causa da Santa. Foi assim..

Em 1703 Miguel Garcia Velho descobriu ouro nas proximidades da cachoeira de Itagiba dando origem ao povoado de Descoberto de Itagiba que depois, quando é entronizada a imagem de Nossa Senhora da Soledade como sua padroeira, ela se torna Soledade de Itajubá. Em 1752 lhe é concedida a prerrogativa do altar portátil e é celebrada a primeira missa, sendo seu cura o Pe. Antonio da Silveira Cardoso e Silva e em 1762 é elevada a Freguesia sendo seu cura o Pe. Floriano da Silva Toledo.

Quando em 1818 chega o Pe. Lourenço da Costa Moreira a situação se modifica e surge crise entre os fieis. Não gostando da Paróquia e atribuindo-lhe muitos defeitos o novo sacerdote instiga o povo a abandonar o local e descer para o Sapucaí. Guido Gilberto do Nascimento relata que cerca de oitenta homens aquiesceram à convocação do senhor vigário e na manhã de 18 de março de 1819, após Missa, com orações e súplicas ao céu pelo bom êxito da jornada, eles partiram para as bandas do Sapucaí. O Padre vigário, que era coxo foi a cavalo e no dia seguinte, 19 de março, celebraram a chegada ao novo lar.Era o início de uma povoação que mais tarde se transformaria na atual cidade de Itajubá. Pe. Lourenço deixou a freguesia ou Capela Velha de Soledade de Itajubá, sem assistência e ainda lhe fazia inúmeras críticas dizendo que ela não tinha mais recursos deplorando sua topografia, clima e isolamento. O Padre gozava de prestígio nos meios políticos e graças a essa influência conseguiu pelo Decreto de 8 de novembro de 1831 suprimir a freguesia de Soledade de Itajubá rebaixando-a a simples curato. O Decreto foi assinado pelo Padre Diogo Antonio Feijó, Ministro e Secretário d´Estado do Interior e Justiça da regência Trina. Em princípio de agosto desse ano Padre Lourenço, acompanhado de muitos fieis da Boa Vista do Sapucaí, rumou serra acima para a velha localidade com a finalidade de buscar o livro do Tombo, as alfaias,a Fazenda e os santos pertencentes à Paróquia. Na época chamava-se de Fazenda a parte administrativa eclesiástica responsável pela parte econômica financeira da igreja. Tal qual temos, em semelhança, o Ministério da fazenda. Ela era, também, o cofre e o caixa da Paróquia.

Os delfinenses souberam da expedição e se prepararam para receber “o Aleijado”,como o apelidaram, e sua turma. Nas proximidades da Velha Capela o Pe.Lourenço, todo paramentado, organizou uma procissão com os homens vestindo opas e tochas e as mulheres de véus e velas acesas. Rezando e cantando loas eles caminharam pela velha estrada. Quando a procissão chegou ao pontilhão do rio Taboão, no início da povoação, foram surpreendidos por homens armados de foices, facões, espingardas e dispostos a não permitir a entrada.Ninguém, mas ninguém mesmo, iria levar a santinha, custasse o que custasse. De um lado da ponte estavam os defensores da Santa e no lado oposto estavam os invasores com o padre e comitiva. De repente, no auge da discussão um tiro espocou, para o alto. Alguém, depois, asseverou que não foi tiro, foi um foguete. Foi o suficiente para debandar a procissão e por o pessoal a correr, desorientado, para suas montarias e voltar para o Sapucaí. Em pânico eles nem se lembraram das alfaias, Livro de Tombo, santos, castiçais, Fazenda e sinos. Humilhado o Padre Lourenço jurou que iria fazer a completa extinção da Velha Freguesia. Coisa que nunca ocorreu.

Em 30 de novembro de 1842, a Lei Provincial nº 239,pelo seu Art. 2, devolveu a condição de Freguesia para Soledade de Itajubá.







segunda-feira, 6 de agosto de 2012

A SERRA DA MANTIQUEIRA





A Serra da Mantiqueira tem o nome de origem tupi-guarani Amanti-Kir e significa “Serra que chora” devido à grande quantidade de nascentes e riachos encontrados em suas encostas. Ela integra o ecossistema da Mata Atlântica que possui uma das maiores biodiversidades do planeta. Numa extensão de quase 500 km. ela se espalha pelas divisas de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Possui uma linha de cumes mais elevada que se inicia próximo a Bragança Paulista seguindo na direção norte-nordeste, delineando as divisas dos três Estados até a região de Parque Nacional do Itatiaia e daí continuando dentro do Estado de Minas até Barbacena.

No início da ocupação do Brasil ela foi um grande obstáculo a ser vencido para as expedições que iam para o interior em busca do ouro e das pedras preciosas. Vários desbravadores paulistas, entre eles Fernão Dias Paes Leme, abriram caminho a partir do Planalto Paulista, seguia pelo Rio Paraíba passando por onde estão hoje as cidades de Taubaté, Pindamonhangaba, Guaratinguetá, Lorena até a Cidade de Cachoeira Paulista. Daí atravessavam a Serra pela Garganta do Embaú e Passa Quatro e adentravam pelo Sertão da Mantiqueira.

Com a descoberta do ouro a Coroa Portuguesa, no intuito de controlar o trânsito do metal e facilitar a cobrança dos impostos, define o único caminho permitido para o acesso às minas e para o transporte do metal, e que ficou conhecido como Caminho Geral do Sertão. Este se iniciava em Paraty, atravessava a Serra do Mar e atingia Guaratinguetá. Daí seguia pelo caminho dos Paulistas atravessando a Mantiqueira e passando por onde estão hoje Passa-Quatro, Itanhandu, Santana do Capivari, Consolação, Pouso Alto, Boa Vista, Baependi, Conceição do Rio Verde, Cruzília e Ingaí. Aí atravessava o Rio Grande chegando a Ibituruna e subia o Rio das Velhas até o Arraial do Rio das Mortes, hoje São João Del Rey. Seguia então até a Vila Rica, hoje Ouro Preto.

A mantiqueira é a região de alguns dos picos mais altos do país:

Pedra da Mina – 2,897 m, entre Passa Quatro e Queluz.

Agulhas Negras – 2.787 m, no Parque Nacional do Itatiaia.

Pico Três Estados – 2.665 m, entre Passa Quatro e Queluz

Pico dos Marins – 2.420 m, entre Marmelópolis e Cruzeiro.

Também lá estão algumas das cidades brasileiras com maior altitude:

Campos do Jordão - SP – 1.620 m

Monte Verde (distrito de Camanducaia) – MG – 1.550 m

Senador Amaral - MG – 1.500 m

Bom Repouso – MG – 1.370 m

Maria da Fé – MG – 1.280 m

Munhoz – MG - 1.260 m

Gonçalves – MG - 1.250 m

Delfim Moreira – MG - 1.200 m

Bueno Brandão – MG - 1.200 m

Devido à altitude, o inverno na Serra da Mantiqueira apresenta baixas temperaturas, com a ocorrência de nevoeiros no início da manhã e às vezes, geadas, dando à paisagem o visual das regiões de clima frio. É comum o termômetro atingir marcas próximas a 0ºC, sendo que nas cidades mais altas como Campos do Jordão e Monte Verde já se verificou temperatura de - 5ºC .




A LENDA DA SERRA DA MANTIQUEIRA

Rita Elisa, no livro A Menina dos Vagalumes conta a lenda da serra da Mantiqueira que ela recolheu da peça Fantástica lenda de Algures:

Conta a lenda que vivia uma princesa encantada da Bravo Tribo Guerreira do Povo Tupi. Seu nome o tempo esqueceu, de seu rosto a lembrança perdeu; só se sabe que era linda.

Era tão linda que todos a queriam, mas ela não queria ninguém. Vira homens se matarem por vê-la. Tacapes velozes triturando ossos, setas certeiras cortando carnes. Como poderiam amá-la se não amavam a sí próprios?

A Bela Princesa se apaixonou pelo Sol, o guerreiro de cocar de fogo e ouro, que vivia lá em cima, no céu, caçando para Tupã. Mas o Sol, ao contrário de tantos príncipes, não queria saber dela. Não via sua beleza, não escutava suas palavras nem detinha para tê-la.

Mal passava, cálido, por sua pele morena, sua tez cheirando a flor, mal acariciava seus pelos negros, suas pernas esguias, e, fugaz, seguia impávido a senda das horas e das sombras. Mas ela era tão bonita que senti-la nua, seus pequenos túrgidos seios, seus lábios de mel e seiva, sua virginal lascívia, acabaram também encantando o Sol. E o Guerreiro de Cocar de Fogo fazia horas de meio-dia sobre o Itaguaré…

A Lua, mal surgia sobre a serra, já sumia acolá. Logo, não havia noite. O sol não se punha mais e não havia sono, e não havia sonho, e tão perto vinha o Sol beijar a amada que os pastos se incendiavam, a capoeira secava e ferviam os lamaçais…

De tênues penugens de prata, plumas alvas de cegonhaçu, a Lua viu que estava ameaçada por uma simples mulher. O Sol, que na Oca do Infinito já lhe dera tantas madrugadas de prazer, tantas auroras de puro gosto, se apaixonara por uma mulher…

E tanto, de tanto que Tupã quis saber o que era, que a Lua, cheia de ódio, crescente de ciúme, minguando de dor, se fez um novo ser de noite-sem-lua e foi contar tudo para Tupã. Como uma simples mulher ousou amar o Sol ? Como o Sol ousou deter o tempo para amar alguém ?

Que ele nunca mais a visse ! Mas o Sol tudo vê ! … Tupã ergueu a maior montanha que existia e lá dentro encerrou a Princesinha Encantada da Brava Tribo Guerreira do Povo Tupi. O Sol, de dor, sangrou poentes e quis se afogar no mar. A Lua, com a dor do seu amado, chorou miríades de estrelas e prantos de luz. Mas nenhum choro foi tão chorado como a da Princesinha, tão bela, que nunca mais pôde ver o dia, que nunca mais sentiria o Sol… Ela chorou rios de lágrimas, rio Verde, Rio Passa Quatro, Rio Quilombo, Rios de águas límpidas, minas, fontes, grotas, ribeiras, enchentes, corredeiras, bicas, mananciais. Seu povo esqueceu seu nome, mas chamou Amantikir, a “Serra-que-chora”, Mantiqueira, a montanha que a cobriu.



sábado, 2 de junho de 2012

O contador de histórias




A conversa se desenvolvia calma, com alguns risinhos, relembrando a terra em que eles nasceram. Moravam muito distante um do outro. Um aqui, outro lá no fim do mundo. Não era um tirinho de espingarda como dizem os mineiros, era algo como longe pra burro. A conversa era pela internet entre tio e sobrinha, mais do que sobrinha, era também afilhada, portanto sobrinha-afilhada. Eles digitavam e expressavam a alegria com kkkkk ou rsrsr. Ela durante alguns anos, quando era criança, morou na casa da vó para lhe fazer companhia, embora residisse na mesma cidade e por isso compartilhavam as mesmas lembranças. A conversa era corriqueira, as vezes até sem sal nem gordura, e esbarrou no comentário do frio que estava chegando com alguma intensidade. Lá no alto da Mantiqueira, onde eles viveram, o frio era violento, daqueles de deixar tudo congelado, as roupas no varal ficavam durinhas, a água da bacia se transformava numa crosta de gelo que as crianças usavam para brincar e não saia a água na torneira do quintal. É um frio dos infernos dizia o Chico Ripa, embora, todos sabem que o inferno é quente... Ela recorda que nas noites muito frias, naquele tempo do onça, costumava-se colocar garrafas com água quente para esquentar a cama. E a única vantagem que tinha nesse tempo é que poderia usar o calçado, um Conga de lona azul e sola de ráfia enrolada. Era a sensação. Era um tempo difícil, disse ela, época de dificuldades, de pouca coisa, mas nós nos sentiamos felizes e o que faltava não atrapalhava de ser feliz.

Á noite o Zé da Venda, pai da menina, reunia a família em torno da lareira, lá na Fazenda da Peixe, onde era o administrador, as crianças assentadas no chão e ele a contar histórias de assombração. Isso mesmo, de assombração! Todo mundo conta histórias de fadas para a criança dormir. Ele era diferente, contava coisas de assombração, e olha que lá naquela terra existiam muitas histórias nesse tipo. Maria Rita contou que a história de que mais lhe dava medo, não era a da mula sem cabeça, e nem do Saci Pererê, era a da porca com sete leitõezinhos, que saia do buraco do barranco, toda noite, por volta da meia noite.Perguntei porque tinha medo de uma coisa tão boba e ela não soube explicar, só sabia que quando a história era essa, ela corria para a cama, deitava e cobria a cabeça. Passava a noite toda de cabeça coberta.

Como explicar o coração da criança?..........







segunda-feira, 5 de março de 2012

VESTIDA PARA DANÇAR



Lá estava ela,do outro lado do salão, conversando com as amigas. Vestida para dançar, cabelos castanhos enrolados num adorno, olhos esverdeados. E ela sorriu. Não foi apenas um sorriso, foram cintilações de sol iluminando o salão, mais forte do que todas as luzes.Era também um sorriso que embriagava pois eu fiquei tonto, tive vertigens, deu zonzeira..... Eu queria dançar com ela, senti-la nos braços, afagar seu cabelo, apertar sua cintura e falar e falar ao seu ouvido. Não queria conversar. Isso não. Queria falar e dizer que a amava, queria dizer que estava apaixonado e que era feliz só por vê-la. Queria muitas coisas, mas tinha medo. Faltava coragem para atravessar os poucos passos do salão, ir lá onde ela estava e convidá-la para dançar. Não tinha coragem e então resolvi buscar auxilio e fui tomar uma bebida para afugentar o medo e desci para o bar. A bebida não me ajudou, ao contrário, ela queimou no estomago, colocou um hálito de carniça em minha boca e me deixou triste. Como poderia chegar perto dela, falar com ela com a boca cheirando podridão? O baile acabou, as luzes apagaram e eu desci a rua da ponte como um cachorro vadio, com o rabo entre as pernas.


Outro baile chegou com novas esperanças e a promessa de ser valente e lá estava eu de terno de linho branco, linho irlandês, gravata borboleta preta,de cetim, lenço no bolsinho e muita coragem... e a vi, mais bela do que antes, mais desejada ainda. Eu ainda tinha dúvida se ia ou não convidá-la para a dança, quando, assim de repente, ela olhou para mim. Não foi um olhar casual porque demorou no olhar. Era um olhar que dizia pode vir, estou a sua espera, eu quero... e eu fui, atravessei o salão,sentindo-se cavaleiro medieval montado em cavalo branco,armas reluzentes, para conquistar a princesa aprisionada. Cheguei até ela e gaguejei um cumprimento, e a voz enroscada na garganta nem chegou a convidá-la, mas ela sorriu e me acompanhou, como uma rainha que atende ao súdito. Minha mão esquerda envolveu sua cintura e a direita segurou sua mão. Ela descansou a mão no meu ombro e nossos corpos se juntaram como duas mãos num momento de oração. Eu a sentia, como sentia a vida, o ar a felicidade, o corpo macio, delicado, deslizando junto ao meu, no compasso de dois pra lá, dois pra cá, imposto pelo bolero. A felicidade era tanta que dava vontade de gritar para todos ouvirem. Parecia que só estávamos nós dois, mais ninguém. O mundo era nosso, a vida era nossa, o momento era nosso, como num conto de fadas, num salão todo cheio de luzes. Os violinos sugeriam voar, rodopiar entre as nuvens, dois anjos decaídos ou dois santos pecadores, de corpos colados, na cumplicidade da música. Na emoção dos olhos nos olhos ela falou, não foi uma voz humana, articulada por cordas vocais, foi o som etéreo de um serafim apaixonado criando ondas de paixão, como a pedra que cai no lago adormecido. Sua voz penetrou minhas células, peregrinou por meu sangue e fluiu quente no coração e eu fechei os olhos e me deixei levar...........e naquele momento tive certeza de que encontrara a mulher certa, a mulher que iria ser a mãe de nossos filhos... eu sei que vivi a felicidade...

domingo, 5 de fevereiro de 2012

O menino e a Rainha da Cachoeira





Eu morava em Delfim Moreira, na cidade, e minha irmã e madrinha na Fazenda Alegria das fábricas Peixe, onde meu cunhado-padrinho era o administrador. Aos domingos, pela manhã, subia o morro do Taboão rumo à casa de meus padrinhos, onde brincava com meus sobrinhos que eram poucos mais jovens do que eu. Muitas vezes ia de bicicleta Phillips, toda equipada, farol, farolete, retrovisores ornados com fitas coloridas. Quase toda a subida era feita a pé,empurrando a magrela, mas na volta, era uma delícia, não se fazia força, era deixar rodar, morro abaixo,fazendo curvas em velocidade. Certa vez ao fazer uma curva dei de encontro com homens que voltavam da cidade, alguns embriagados, andando no meio da estrada. Não deu outra, atropelei o mais alto e creio que mais bêbado, enfiando a bicicleta no vão das pernas do homem e jogando-o ao chão. Cai por cima dele e rolamos na poeira vermelha. O homem não teve tempo de fazer nada, pois enquanto ele se levantava, capengando por causa da bebida,(ou do atropelamento, sei lá!), eu já ia longe montado numa bicicleta avariada. Nem ouvi direito seus xingos, tanta era a pressa e o medo. Dessa estrada se avista uma cachoeira enorme, alta, volumosa, que é a atração dos jovens e visitantes. Lá do alto ela deixava cair, escorregando pelas pedras uma espuma branca e leitosa como o leite tirado da vaquinha Mimosa, que se espatifava nas pedras de sua base e formava uma lagoa borbulhante. Os adultos advertiam sobre o perigo dessa lagoa, que era profunda, formando um pilão que moía tudo que nele caia. Não se podia nadar nas redondezas desse pilão e nem tentar escalar a cachoeira. Eu respeitava a advertência e acima de tudo tinha medo, muito medo, pois Zé Candido, o dono daquela venda na curva da estrada, me contava histórias escabrosas. Quase toda noite, Zé Candido saia de sua vendinha e ia para a cidade para contar histórias, sentado no banco da Pharmacia N.S. da Soledade, de propriedade do papai. Seu repertorio era vasto e prendia meu interesse a ponto de esquecer a fome, o cansaço e as horas. Era uma delícia ouvi-lo em seu linguajar caboclo, narrar histórias de aventuras e assombrações e tirar de tudo uma lição de moral. Ele contou que existia, no fundo do pilão da cachoeira uma mina de ouro que era guardado por sua deusa e dona, e nas noites de lua cheia, à meia noite, em ponto, antes de terminar de bater as doze pancadas, as águas se congelavam, ficavam parada, não caiam das pedras, e nenhum som era ouvido, nem o barulho das águas e nem o dos bichos do mato. Nessa hora a deusa aparecia e pintava de dourado o lugar que tinha ouro. Mas ninguém podia olhar senão ficava enfeitiçado e ela levava para o seu reino como escravo. Muitas daquelas pedras que circundavam a lagoa eram pessoas que foram enfeitiçadas. Para não se deixar enfeitiçar só olhando por meio de um espelho, olhar indireto, sem olhar diretamente a deusa. Foi assim que alguns bandeirantes encontraram ouro, como aconteceu com Miguel Garcia. Certa vez eu fiquei até mais tarde num dos bailes que o seu Juca Rocha dava em sua casa lá na Peixe, tentando ver e falar com sua filha que eu queria namorar.O certo é que desci, devagar, emburrado por não ter falado com a menina e nem notei que as horas estavam avançadas. Nem era meia noite ainda, por muito e muito eram dez e meia, mas minha imaginação me fez ver o perigo da meia noite, ao ver a brancura da cachoeira. A lua branca brincava de espelho, redondo, num céu frio cheio de estrelas e iluminava os moldes dos pés e pneus na poeira fina da estrada. Eu não tinha relógio, mas tinha medo, eu estava com frio e tinha medo. Qualquer coisa que eu tivesse, o medo era muito maior. Esse medo me fez ver a deusa do ouro, pairando em cima das águas e soltando faíscas das mãos. Não queria olhar, mas desejava ver o que ia acontecer, não por causa do ouro, mas para saber como era essa tal deusa. O coração pulava mais do que cabrito,mais do que quando eu via a Ivete, e arrisquei uma olhada. Umazinha, rápida, não faria mal. A tal deusa nem iria perceber. E então arrisquei, olhei, de soslaio, olhar de medo e de curiosidade, olhei..... e perdi a direção da bicicleta. Fui de encontro ao barranco. Cai estatelado e uma turma de pássaros noturnos, sentindo-se ameaçados, bateu em retirada, fazendo alvoroço. Do chão vi a lua zombeteira, rir de minha idiotice. Cheguei em casa, sujo, amarrotado, empurrando a bicicleta e jurando que tinha sido derrubado pela deusa do ouro....




domingo, 25 de dezembro de 2011

Assim vai ser, e assim será



Não consigo entender o mecanismo das emoções, porque vem, para que vem e o que elas são realmente. Só sei que posso senti-las, algumas calmas, serenas, como a brisa que empurra o dia para traz dos montes, outras são violentas, amedrontadoras como a tempestade de raios e trovões. São tatuagens que carrego visíveis em meu corpo e na alma, exposta nos olhos e nos lábios. No fundo do baú, num escuro que presumo que nunca será alcançado, escondo mágoas e maldades, e tranco essas emoções com medo de fantasmas. Dá vontade de passar uma esponja e apagar certos acontecimentos, ou então fechar os olhos e mentir que foi sonhando, sonhando um pesadelo.

Todas as vezes que vou à Chácara do Ipe volta a minha memória o acidente de meus familiares, carregado com a mesma emoção do dia do acontecido. Não importa as orações que tenho feito ou as conversas em torno da mesa da cozinha, não importa saber que eles estão salvos, se restabelecendo com segurança, não importa entender que Deus agiu de forma extraordinária, fazendo o milagre da Vida. A emoção não acredita em racionalização e irrompe enérgica como o tigre que sai da toca e salta sobre a vítima. Como novo Adamastor com “ rosto carregado, a barba esquálida, os olhos encovados e a postura medonha e má, a boca negra e os dentes amarelos”, com seus olhos vermelhos e, a fauce escancarada, arrasta consigo um turbilhão de recordações, que embaralham os sentidos. A cena é toda revivida, detalhe por detalhe, dor por dor. Sei que vou superar, com a benção de Deus, o sentido doloroso desse acontecimento e deixar que a memória, a recordação, flua calma como o dia depois da tempestade.Vai restar a lembrança do que houve, o registro da memória não se apaga, mas a emoção de dor e sofrimento desaparecerá. É como olhar para uma faca e saber que ela já me cortou, mas que agora eu a domino com mais precaução.

E Assim vai ser, e assim será

domingo, 18 de dezembro de 2011

O Natal começou quando Maria disse SIM.




No momento em que o anjo visitou a donzela orante, no momento em que ela, respeitosa à vontade de Deus, deu o seu consentimento, houve uma grande modificação no mundo. Como um raio que percorresse o espaço, da terra e do céu, carregando em sua energia a promessa de Paz e de Vida, o SIM, pronunciado como oração, envolveu e revolucionou a humanidade. A partir dele o antigo deu lugar ao novo, as trevas foram afastadas pela luz e o dia da glória, o dia do Senhor apontou radioso no horizonte. Maria entrega a Deus a sua humanidade, humilde e criada, para que Ele a enobreça. Foi necessário que Deus se fizesse carne para que nossa carne pudesse entender a mensagem que vinha sendo anunciada desde a criação do mundo. O sim murmurado em prece é uma melodia que percorre todos os quadrantes e vai explodir na manjedoura de Belém no solene canto dos anjos que anunciam que o sim se tornou Deus e Deus se tornou homem. Jesus assume sua humanidade em todas as circunstância e etapas da vida afim de santificar todos os momentos da vida.

Antes de aparecer sua humanidade, antes do nascimento em Belém, o Amor já existia, pois ele é eterno, e estava nEle sendo Ele, mas poucos acreditaram porque estava oculto. Mas agora ele se revelou, manifestando-se na humanidade e a Paz se tornou realidade. Que mistério maravilhoso de um Deus criador que se utiliza de sua criatura para se fazer filho. Maria é mãe verdadeira de um Deus que é seu filho, embora sendo Ele o seu criador. Como pode Deus Criador, que não tem princípio e nem fim, sair da profundidade infinita das coisas não criadas e vir se estabelecer, como filho, descendente e dependente, de uma carne, sujeito a ter fim. Já que transporta em seu seio um Deus perfeito, Maria foi um templo sagrado, resvalando para o divino sem deixar de ser humana.

Não há dúvida de que o amor que levou um Deus a se encarnar na humanidade foi muito forte e Ele teve que lutar contra os desafios de um inimigo que tentava destruí-Lo. Esse inimigo, o separador, di-abolo, não sabia onde estavam os limites de sua humanidade e de sua divindade.



quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Receita de como fazer uma Capela



Fazia tempo que eu vinha acalentando a idéia de colocar um Crucifixo na entrada da Chácara do IPE, semelhante aqueles que se encontram nos Alpes, protegidos por um pequeno telhado e com flores enroscadas na base.

Na festa de Santa Rita de 2010, encontrei na Praça um vendedor de objetos entalhados em madeira, e entre seus produtos estava um Crucifixo de mais ou menos 1,50m, todo escurecido por betume, pretinho de dar gosto.Minha esposa e filha tentaram me desestimular da compra, mas não arredei pé e o levei para casa. Com calma, paciência e paixão fui retirando a camada de betume e aos poucos foi se deixando mostrar um Cristo bonito, bem talhado e todos ficamos surpresos com a revelação.





Coloquei-o numa peça de madeira e o finquei no caminho da gruta, lá na roça. Ficou bonito, sobranceiro, lá no alto, distribuindo sua benção e acolhendo os pássaros que vinham fazer algazarra em seus braços. Quinze dias depois ele estava trincado pelo excesso de sol e tive que retirá-lo para dentro da casa para fazer as devidas restaurações. E agora? Era temerário colocá-lo de volta, sob o sol, mesmo com proteção.








Existia ao lado um quiosque em forma hexagonal que há muito tempo foi churrasqueira e descanso para a piscina e que estava obsoleto porque eu desativei a piscina e mudei a churrasqueira para a área da cozinha. Estava aí o lugar ideal para a capela.
Passei a sonhar e fazer planos, igual a criança que espera um presente de Papai Noel. O plano era fazer algo bem rústico, com paredes de bambu amarrados por cordas de sisal. Queria fazer tudo com minhas mãos, ou bem ou mal, mas ter a alegria de sentir que “ fui eu quem fez“. Deus não quis assim, tive que viajar e o encarregado não cortou os bambus na lua correta. Reformulei os planos, mudei as idéias e aconselhado pela esposa, que não tinha confiança no trabalho que eu ia fazer, chamei um pedreiro.




A Capela ficou rústica montada com janelas simples adquiridas no ferro velho.







Obra pronta, ficou sob minha responsabilidade a pintura e a parte elétrica.





A decoração ficou a encargo da Rita e das filhas.







No altar, ao lado direito do Cristo, um estandarte da Sagrada Família , no centro Missal Romano, em latim, catado no lixo da Igreja, e no lado esquerdo um Divino, pintado e ornamentado pela Rita.









Nas paredes, quadros , com moldura em bronze, das orações que o sacerdote fazia ao celebrar as Missas em latim, também resgatados do lixo. Senti-me alegre e feliz como o Criador no sétimo dia da Criação: e vi que tudo era bom...

Assim se fez a Capela





terça-feira, 1 de novembro de 2011

A Morte da Saudade

  



Eu a encontrei caída, abatida sobre a terra que sempre lhe foi amiga, tombada sobre as flores que lhe embelezaram a vida. Eu não vi a sua morte, não presenciei a agonia, mas deduzo que foi dolorosa, que foi terrível ver-se lascada, partida em suas partes, num grito universal de dor. O vento veio forte como se fosse soprado pela boca de mil titãs. Ela lutou bravamente resistindo à força cruel que a fendia. Sacudiu a cabeleira de seus galhos jogando longe ninhos que os passarinhos pensaram estar em segurança e abrigo. O vento que a arrancou e a estraçalhou chorou com ela em respeito ao seu porte e sua luta.

Há quase 50 Anos ela viera das terras frias do Rosário, lá em Delfim Moreira, chacoalhando numa vemaguete azul. Papai, já doente e cansado, escolheu o lugar para ela ficar, e ela se tornou o sacramento da saudade, recordando o tempo feliz que passei com meu velho. Muitas vezes quiseram cortá-la com a desculpa de que estava tomando muito espaço, que era muito grande, mas a recordação de meu pai a manteve viva e a defendeu do machado assassino. Minha esposa contornou seu tronco com belas flores, formando um jardim aprimorado. Orquídeas foram presas em seus galhos e enfeitaram de cores as sombras alongadas. À tarde as sabiás, lá no alto dos galhos, enfunavam o peito para um canto gostoso que nós entendíamos como se estivesse chamando a Letícia.

Agora a gigante foi abatida, tombou solene, altiva, arrastando plantas menores, derrubando acerolas e sufocando goiabeiras. A terra estremeceu com o baque de seu corpo, porém meu coração estremeceu muito mais por causa da saudade que ela representava. Ela foi embora, acabou, mas a saudade ficou como aquele mosquitinho que a gente não vê mas perturba o nosso sono, um mosquito que a gente não consegue ver e muito menos matar.





Perdi a Pereira mais preciosa, a que recordava o amor de meu pai, mas olhando os últimos acontecimentos, me alegro porque Deus conservou a vida de meu neto e de minha nora; não vou mais degustar os frutos adocicados que ela todos os anos fornecia, mas vou conservar o sabor do sorriso e do carinhos dessas duas pessoas queridas. A vida é assim, Deus sempre ameniza as catástrofes.

sábado, 27 de agosto de 2011

A garganta do Embaú




Lá pela época dos anos 40, no século passado, era comum ir para Aparecida, que na época era Aparecida do Norte, numa viagem de trem. Era uma viagem longa e complicada, saindo de madrugada e fazendo a primeira baldeação, troca de composição férrea, em Soledade de Minas. Dalí seguíamos para Passa Quatro e depois Cruzeiro, já no estado de São Paulo, onde passávamos para a E.F.Central do Brasil e íamos para o destino. De Passa Quaro a Cruzeiro passávamos pelo grande túnel da Garganta do Embaú, muito conhecido por causa do massacre dos paulistas que, na revolução de 1932, tentaram invadir Minas Gerais passando através dele.

A serra da Mantiqueira é uma defesa natural do território mineiro e na época do Brasil Colônia foi um desafio para a escoação do ouro que se fazia através de Parati, entreposto comercial, no fundo da baía da Ilha Grande. O caminho terrestre que partia de Paraty, seguia por Guaratinguetá, passava pela Freguesia da Piedade (atual Lorena), vencia a Garganta do Embaú e chegava a Minas Gerais: era o chamado ”Caminho do Ouro da Piedade.”



Mario Lucio Sapucahy afirma que “ era extremamente difícil transpor a Serra da Mantiqueira por outro ponto que não fosse a Garganta do Embaú. Tal garganta não passa de uma depressão no espigão da Serra da Mantiqueira, local por onde se fazia a ligação entre as terras mineiras e o Vale do Paraiba”.

Lá no alto, marcando a divisa entre os estados de São Paulo e de Minas Gerais, existe uma cruz, a Cruz do Embaú, que em 1720 os mineiros trouxeram do monte Caxambu. Mudando-se, matreiramente, o lugar da cruz, Minas ganhou toda a região da Serra Alta da Mantiqueira.






Para fiscalizar as pessoas que procuravam esse caminho em busca do comércio de São Paulo, Parati e Rio de Janeiro e para combater assaltos e também para evitar o contrabando de ouro e pedras preciosas que saiam de Minas, o governo instalou, na divisa entre a Província de Minas e de São Paulo, o Registro do Embaú, patrulhado pelo corpo da tropas pagas de Vila Rica. Registro era o ponto de fiscalização.

Em março de 1822, Saint-Hilaire, passou pela garganta e se hospedou no Registro.

“ O Registro da Mantiqueira foi colocado mesmo na raiz da serra e compõe-se da casa da barreira, ocupada pela repartição e dum rancho, no qual fica a balança onde se pesam as mercadorias vindas do Rio de Janeiro. Essas construções localizam-se em torno de um grande pátio, fechado do lado da montanha por uma porta de madeira. Como existe o projeto de se mudar o traçado da estrada, não se fez, desde algum tempo, o menor reparo nas casas do Registro que estão, atualmente, quanto muito, habitáveis,”



Assim, também, formou-se outro Registro importante localizado onde hoje é a cidade de Pouso Alegre e se chamava Registro do Mandu, instalado com a finalidade de controlar o comércio e transporte do ouro retirado de Santana do Sapucaí, atual Silvianópolis, e de São Francisco das Chagas de Ouro Fino.

Com a demarcação entre as províncias de Minas Gerais e São Paulo ainda indefinida, Francisco Martins Lustosa e Veríssimo João de Carvalho tomaram posse do descoberto de Santana do Sapucaí e Ouro Fino, e foram nomeados pelo governador de São Paulo, respectivamente, guarda-mor e intendente das minas.

Mais tarde Gomes Freire de Andrade, "mandou que, por ordem sua, fosse tomada posse de todas aquelas terras minerais, estabelecendo uma guarda no Sapucaí e um Registro no Mandu". Com essa medida o governador da província de Minas Gerais esperava resolver definitivamente a questão. Não obstante, continuou encontrando resistência por parte dos paulistas.

A criação de um Registro, muito antes da criação da freguesia, indica que um povoado antigo se formou lentamente às margens do rio. Um lugarejo relativamente populoso que justificava o estabelecimento de um Registro do Ouro no lugar. A presença de certo número de guardas nesse posto fiscal faz crer que seria um Registro de grande movimento, porque por ali passava o único caminho conhecido pelos viajantes, entre Vila Rica e São Paulo.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

PEÇA CONTAMINADA


OLHA QUE TRISTEZA! O rapaz estava entristecido, olhando a imagem em cima da mesa. Imagem bonita,de madeira, talhada com esmero, de cortes precisos. Quem a esculpiu era um grande artista, seus traços eram vigorosos, enérgicos e transmitiam movimento á peça. Peça velha, antiga, escura pelo tempo. Tudo parecia perfeito........mas ela estava bichada. O caruncho tinha corroído todo o seu interior, cavou tanto que agora ela era apenas uma casca frágil e delicada, se apertasse com força ficaria em frangalhos. Quando aparecia apenas um buraquinho, alguém o aconselhou a dar um bom banho com querozene, mas isso nada adiantou. Os bichinhos ainda roíam.... No início foi apenas um bichinho que penetrou na madeira. Coisinha pouca, mole, frágil que poderia ser esmagado com o dedinho da mão. Agora é um batalhão de devoradores, roendo sem parar. O técnico em extirpação de cupins disse que era preciso colocar a peça numa estufa com venenos especiais e submeter a fortes temperaturas. Outro aconselhou a desistir, peça que pega cupim só serve para o fogo. A peça era muito bonita e o rapaz não queria perde-la.


Com a nossa vida acontece coisa semelhante.

Somos obras de beleza trabalhadas pelo cinzel das mãos divinas do Criador. Nada se iguala a nós e o salmista diz que somos maiores do que os anjos. Nosso corpo é perfeito em seu conjunto, bonito em sua forma, harmonioso em suas linhas.Todo o universo foi preparado para servir de berço para o homem.

Mas eis, que por descuido, o bichinho voraz da maldade, com todas as suas sete tenazes, rompe a harmonia e corrói o nosso interior, e a maldade se instala faminta alimentando-se do corpo e da alma. Começa com apenas um , mas depois outros diabinhos se juntam e a desgraça está armada. Eles corroem, põem amargura na vida, minam a fortaleza interior, envenenam as ações e transformam a vida em morte. E de repente a gente é só uma casquinha superficial, sem conteúdo, sem cerne, coisinha frágil que se quebra em qualquer dificuldade. Para matar esses diabinhos roedores da paz, da harmonia e do amor é necessário submeter-se á ação inseticida da oração e do jejum, na palavra de Cristo. Sempre corremos o perigo da contaminação, e se a gente se descuidar ele invade e toma tudo numa só bocada. Muitas vezes nos iludimos quando ele se apresenta numa aparência frágil e delicada, de carne rosada e atraente, fala suave e melodiosa. Mas não podemos nos iludir: a maldade se reveste também de beleza para seduzir...





sábado, 23 de julho de 2011

INSONIA


A noite estava se alongando mais do que eu gostaria. A televisão já não mais me atraia, tinha assistido filmes e documentários, filmes antigos, repetidos, que a emissora dizia que eram inéditos e documentários cansativos, sem interesse.O sono não chegava, tinha perdido o rumo de meus olhos, esquecera meu endereço. Devorei capítulos de livros que durante o dia achei interessante, mas, mas que agora não tinha nenhum atrativo. Lembrei-me de um conto que li h muito tempo, parece-me que era de Erico Veríssimo, sobre um homem que teve insônia e acabou indo até em um velório. Mas, ali, na Chácara do Ipê, na Cachoeirinha, não tinha rua para passear, bar para bebericar e nem velório.


A tradição da insônia manda contar carneirinhos e me pus a imaginar como seria esse processo se não havia carneiros, bodes, cabritos e bezerros lá na chácara. Lembrei-me da auto-sugestão que é um tipo de hipnotizar a si mesmo. Houve uma época em que eu era um bom hipnotizador, foi quando estudava psicologia, e praticava a hipnose em meus sobrinhos. Um deles deixou de fumar pela sugestão hipnótica, o outro ficou tão dependente de mim que eu segurava sua mão, assim numa boa, e dizia que ele não iria conseguir tirá-la da minha, e ele não conseguia mesmo. Imaginei ser fácil fazer a auto sugestão, e bestamente me pus a dizer, como se fosse um mantra, “ você vai dormir”, “você vai dormir”. Mas tinha me esquecido de uma coisa, para a hipnose fazer efeito é preciso acreditar nela e eu não estava acreditando nadinha. Cansei e não dormir.

Resolvi fazer um chá. Mamãe, e também a Rita, sempre falaram que um chá de erva cidreira de capim, ótimo para acalmar o espírito e fazer o sono chegar. Fui ao quintal levando uma lanterna barata, comprada na barraquinha da festa de Santa Rita, daquelas lanternas de leds, recarregáveis, para alumiar, e, com tesoura, cortei algumas folhas de erva cidreira. A noite estava de céu limpo, estrelas assustadoramente brilhantes, a lua era um enorme queijo mineiro, branquinho e suculento, servido numa mesa azul. Aquela apresentação deslumbrante espantava mais ainda a chegada do sono. Fervi a água, sem deixar fazer muitas bolhas para não perder o oxigênio, e deitei as folhas colhidas. Que desastre! Não eram de erva cidreira. No desleixo que a falta de sono causa, no desespero de querer dormir, tinha colhido folhas de citronela. Eu percebi uma vantagem no que estava acontecendo, iria ver o sol nascer, lá no terraço, lugar alto, de vista privilegiada. Abri uma cadeira espreguiçadeira, acomodei-me com conforto, de frente para o nascente e pus-me a esperar o nascer do sol. Teria em meu currículo o fabuloso espetáculo do sol se erguendo atrás da montanha. Acordei já com sol alto, e a Rita me sacudindo perguntando a razão de não ter dormido na cama...

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Minhas duas mães.....



Deus sempre teve um carinho especial por mim, carinho particular, selecionado, mostrando-me que eu era o preferido. Nessa predileção Ele me concedeu a graça de ter duas mães aqui na terra, na mesma família, no mesmo sangue no mesmo DNA. Uma, a mãe Bemvinda, querida até no nome. Mulher humilde, mãe genitora. Mulher amável, longos cabelos, crespos, enrolados em coque dava-lhe ar matriarcal. Nas tardes serenas da Mantiqueira, nós assentávamos num banco de madeira e eu me deitava em seu colo para ouvir histórias contadas com carinho e exagero. Quantas mil vezes ela me defendeu, até nas grandes artes, de criança ou adolescente, mostrando preocupação por causa de meu “ tolatão” doente.


A outra foi a mãe ZICA, minha irmã a quem me apeguei de tal forma que não lhe dava sossego. Onde ela ia eu estava junto e sempre chamando-a de mãe, fato que a colocava em dificuldade para explicar. Naquela época em que o rapaz só pegava na mão da moça quando já eram noivos, com pedido de casamento assentado, imaginem o sufoco de minha irmã com um menino, pinto calçudo, agarrado a ela e lhe chamando de mãe. Mas a cidade era pequena, meus pais eram muito conhecidos, e todos sabiam que aquele cabelo encaracolado, rosto redondo, falando errado, era filho do Seu Dito da Farmácia.
 Quando o Zé da Venda começou a namorá-la achou estranho esse meu tratamento, mas aos poucos foi se acostumando e, tanto assim foi, que eles se tornaram meus padrinhos.

Ambas as mães me educaram e ensinaram a ser honesto, trabalhador e ter fidelidade religiosa. Guardo com devota emoção as lembranças recolhidas nas andanças da vida. Minha interação com madrinha Zica é muito intensa e dela sou filho, afilhado e compadre. São muitos os gestos de carinho e é com orgulho, santo orgulho, que eu tomo sua mão para beijar e pedir a benção.



terça-feira, 21 de junho de 2011

Hoje eu chorei




Mãe,

A senhora não viu

Mas hoje eu chorei.



Uma dor profunda tomou conta de mim,

e meu peito ardeu na queimadura de brasa viva.

E eu chorei

Chorei com saudades de repousar minha cabeça em seu colo,

De sentir o seu cheiro.

Chorei com saudades de seu carinho,

Daquela comidinha gostosa que a senhora preparava

quando eu chegava de férias

Senti saudades do café com leite na caneca de folha.

Senti saudades dos causos que a senhora contava

Nas noites frias de inverno aos pés do fogão de lenha.

Mãe,

A senhora não viu

Mas hoje eu chorei

Chorei com saudades de chorar nos seus braços



sexta-feira, 3 de junho de 2011

O Intruso






Não sei de onde ele veio e nem percebi para onde foi. Só sei que apareceu no meio da celebração eucarística, na Igreja repleta de fieis. Sua aparência era desleixada, mas não suja, rosto encovado pela magreza, calça jeans , jaqueta escura e sacola às costas. Nos pés uma sandália que não resguardava do frio das noites de maio.

Parou em frente o altar, ajoelhou-se, ergueu as mãos e orou. Oração silenciosa, acanhada, como quem pede desculpa por importunar a casa. Depois se dirigiu à imagem de Nossa Senhora e aí também fez sua oração. Não perturbou ninguém, a ninguém incomodou. De repente procuro e ele não estava mais lá, sumiu. Não sei se foi embora ou se permaneceu na Igreja, mas não o vi mais.

É interessante como todos nós temos sede de Deus, ricos e pobres, jovens e velhos, brancos e pretos, homens e mulheres. Deus é de todos e a todos acolhe, sem distinção.

Muitas vezes fazemos orações trabalhadas, escolhidas, teologicamente elaboradas, e ficamos apreensivos com a oração simples, despreocupada do João ninguém.

A nossa é como um ramalhete de flores, comprado nas floriculturas , em embalagem colorida, amarradas por fitas e com cartões de oferecimento. O João ninguém não traz embalagem, oferece a flor desprotegida, nua, sem enfeites.

Ambas orações são recebidas por Deus e são produzidas pela fé humana em seu desejo de agradecer, suplicar e adorar.

Ambas falam de amor e são produtos da fé, mas possuem roupagens diferentes e os olhos do mundo apreciam uma e a outra não. Aos olhos de Deus o seu valor depende da intensidade do coração e não do modo em que foi produzida, pois Ele conhece o coração das pessoas e o que ali está guardado e sua capacidade de amar.

Para chegar ao coração de Deus basta apenas AMAR.



O aquário e o homem




Estava admirando o aquário na casa de meu amigo. Peixes coloridos, alguns bonitos e outros feios, uns grandes e outros pequenos, nadando ligeiros entre as plantas que foram colocadas para oxigenar o ambiente, completando o trabalho de um aparelhinho que faz borbulhas na água. Meu amigo me contou que se aumentar o tamanho do aquário, e consequentemente, o seu volume de água, os peixes podem ficar maiores. Aquela porção de água cercada de vidro é o seu mundo, ali vivem, procriam, são acometidos de doenças, ficam velhos e morrem.

Voltei para casa meditando no que vi naquele aquário e de súbito percebi que moramos num aquário. As calçadas e praças cheias de gente, homens e mulheres, crianças e adultos, crianças e velhos, pretos, brancos, mulatos, morenos, louros e ruivos, todos somos peixes no gigantesco aquário que é a Terra. Aqui nascemos, crescemos e morremos, sem sair das dimensões do mundo que nos foram oferecidas.

O peixe do aquário não tem idéia do que é a imensidão do oceano, pois o aquário é quase um nada nessa comparação. O peixe do aquário entende que o mundo é aquilo que ele está vivendo, é o que ele vê.

Também nós nos prendemos a pensar que só existe este mundo em que estamos a respirar e não damos conta das maravilhas que Deus criou para além de nossas fronteiras.

O orgulho infla nosso comportamento e achamos que sabemos tudo, que de tudo somos donos e não conseguimos enxergar além dos limites do aquário. Não percebemos que estamos todos na mesma condição, limitados dentro de um mundo que podemos melhorar. Amar, perdoar, procurar deixar o mundo onde vivemos um pouco melhor do que antes da nossa passagem.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

2 DE MAIO, 190 ANOS DE PRESENÇA E BENÇÃOS DA IMAGEM DE SANTA RITA






Estamos a comemorar este ano 190 anos de posse da imagem de Santa Rita de Cassia. Não há duvida de que é um momento de alegria e felicidade por tantas bênçãos que nossa padroeira tem alcançado para nós.

A história da chegada e fixação da imagem em nossa terra é singela e até mesmo poética com o colorido das bênçãos de Deus.

Houve uma época, 1808, em que a família real de Portugal veio para o Brasil fugindo dos ataques de Napoleão Bonaparte. Com a queda de Napoleão, os países que ele tinha conquistado voltaram a viver sua vida independente.

Como a família real estava no Brasil os espanhóis tentaram tomar Portugal para eles, e houve lutas sangrentas entre portugueses e espanhóis e muitos portugueses se entregaram aos invasores aceitando o domínio. Uma região fronteira a Espanha se conservou fiel ao governo português e por isso seu povo foi perseguido, caçado e aprisionado. Muitos fugiram para o Brasil amparados pela proteção de D, João VI que agora era o rei de Portugal.

D. João resolve trazê-los para o Brasil. Em 1815, vieram cerca de 300 refugiados oriundos da serra de Gerez ( Vimiato, Badajos e Olivença). Entre eles vinha o casal José Manoel da Fonseca de 45 anos e Janubeva Maria Martins da Fonseca, 28 anos, com dois filhos Antonio, 16 anos, e Rita de Cássia, 12 anos.

Traziam em sua bagagem, cuidadosamente escondido da sanha dos aventureiros, uma pequena imagem de Santa Rita de Cássia, obra portuguesa em madeira. Aportaram no Rio de Janeiro e dali o casal e filhos optaram por Minas Gerais vindo residir na vila de Baependi.

Com os recursos trazidos de Olivença foi adquirida uma propriedade com ponto de negócio. Manoel, por ser de poucas letras, se encarregou da horta que fizera no terreno dos fundos da casa e seu filho Antonio ficou com a responsabilidade do comércio de coisas e gêneros da terra.

O comércio prosperou e após seis anos de propriedade no comércio eles partiram em busca do sonho de ter uma gleba de terra só para eles. Além das economias de seis anos, eles contavam também com a promessa que D. João fizera aos desalojados do Contestado. Cheio de esperança partiram a procura de um rincão aplausível.

Quando a família de Manoel da Fonseca chegou nesta parte da Mantiqueira encontrou uma razoável população No entanto nem toda a terra tinha dono, pois uma fatia devoluta de cerca de 500 alqueires ainda estava sem posse. Era terra da vertente do ribeirão do Mosquito, caminho e pousada de índios e escravos foragidos que se acampavam perto da lagoa do Bicho. Acima da lagoa foi construído, mais tarde, um ponto dos barqueiros, em frente ao Pouso Danta ( atual fazenda Santa Rita ).

Foi nessa terra que se estabeleceu Manoel da Fonseca - cuidando de cultivar a terra e fazer comércio com os habitantes da região.

A terra era boa, o clima salutar,água em abundância. Pequeno vale na região em que os índios Tupinambas chamavam de sapucahy. Há duas interpretações para a palavra sapucaí: uma é ”água que chora” originada da lingua indígena “hy” significa água e “sapuca” que significa choro; outra interpretação está baseda no dicionário do Pe. José de Anchieta e significa “água que grita”, tanto por causa das cacheiras existentes na cabeceira do rio , como também por causa dos inúmeros salgueiros chorões em suas margens remansadas.

O trabalho na terra e a proximidade de muitos brejos adoeceram o corpo cansado de um homem de mais de cinqüenta anos e sua esposa, devota piedosa de Santa Rita promete lhe um quinhão de terra e uma capela, em favor da saúde de Manoel. Recuperada a saúde, Manoel José da Fonseca fez vir a sua presença o Alferes João Pedro Lima, pedindo-lhe que redigisse um documento de doação de terra para a ereção de uma capela em louvor à Santa Rita. No dia 2 de maio de 1821 Manoel José da Fonseca e Janubeva Maria Martins lavram a doação de oito alqueires de terra para se edificar a Capela de Santa Rita. A doação foi feita de forma solene, tendo como testemunhas os mais renomados proprietários de terras como o capitão Braz Fernandes Ribas dono de extensa sesmaria, o Capitão Manoel Joaquim Pereira, João Pereira de Lima e Francisco da Palma.

Enquanto não se construía a capela a imagem ficou no oratório da residência do capitão Braz Fernandes Ribas que possuía a regalia eclesiástica de ter uma pia batismal, e onde se celebravam as Missas na visitação paroquial, principalmente do Pe. Mariano Accioli de Albuquerque

No dia 22 de maio de 1825, quinta feira do tempo comum, o padre Mariano Acioli de Albuquerque, vigário de Santa Catarina, atual Natercia, benzeu a capela e celebrou a primeira Missa. A Imagem foi trazida em procissão e cantoria, pelos habitantes da região, desde a sede da fazenda do Mosquito, residência de Manoel. Foi a primeira festa de Santa Rita. A procissão que trazia a Santa demorou uma hora pelos caminhos pois todos queriam tocar a Santa, ofereciam alimentos, vinténs e patacões. Nascia, nesse dia, o arraial de Santa Rita.