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sexta-feira, 3 de junho de 2011

O Intruso






Não sei de onde ele veio e nem percebi para onde foi. Só sei que apareceu no meio da celebração eucarística, na Igreja repleta de fieis. Sua aparência era desleixada, mas não suja, rosto encovado pela magreza, calça jeans , jaqueta escura e sacola às costas. Nos pés uma sandália que não resguardava do frio das noites de maio.

Parou em frente o altar, ajoelhou-se, ergueu as mãos e orou. Oração silenciosa, acanhada, como quem pede desculpa por importunar a casa. Depois se dirigiu à imagem de Nossa Senhora e aí também fez sua oração. Não perturbou ninguém, a ninguém incomodou. De repente procuro e ele não estava mais lá, sumiu. Não sei se foi embora ou se permaneceu na Igreja, mas não o vi mais.

É interessante como todos nós temos sede de Deus, ricos e pobres, jovens e velhos, brancos e pretos, homens e mulheres. Deus é de todos e a todos acolhe, sem distinção.

Muitas vezes fazemos orações trabalhadas, escolhidas, teologicamente elaboradas, e ficamos apreensivos com a oração simples, despreocupada do João ninguém.

A nossa é como um ramalhete de flores, comprado nas floriculturas , em embalagem colorida, amarradas por fitas e com cartões de oferecimento. O João ninguém não traz embalagem, oferece a flor desprotegida, nua, sem enfeites.

Ambas orações são recebidas por Deus e são produzidas pela fé humana em seu desejo de agradecer, suplicar e adorar.

Ambas falam de amor e são produtos da fé, mas possuem roupagens diferentes e os olhos do mundo apreciam uma e a outra não. Aos olhos de Deus o seu valor depende da intensidade do coração e não do modo em que foi produzida, pois Ele conhece o coração das pessoas e o que ali está guardado e sua capacidade de amar.

Para chegar ao coração de Deus basta apenas AMAR.



quinta-feira, 7 de abril de 2011

Jejum, eita coisa difícil




SEMPRE TIVE DIFICULDADES com o jejum. Era só dizer que era para fazer jejum que a comida se tornava mais atraente, a carne mugia pedindo para ser devorada e o estomago passava a sentir fome demasiada. Eu sempre fui glutão, devorador de qualquer receita e ousado experimentador das mais exóticas culinárias. Mas tenho predileções. Tem aqueles pratos que eu gosto por gostar, e quando ele vem acompanhado de um vinho de bom tanino eu me perco no pecado da gula.

Por isso foi sempre difícil para mim a idéia de jejum, de abstinência de carne. Meus pais me ensinaram que se devia observar os preceitos religiosos e a Igreja apresentava-os como meio de purificação e mortificação. Eu me esquivava do sacrifício, driblava os pais e sorrateiramente, às escondidas , surrupiava algum alimento fora de hora. Meus pais não viam o delito e a Igreja não tinha como me policiar. Assim foi sendo sempre, vivendo de engodos e mentiras.

Até que um dia compreendi que o jejum que Deus quer não é o de boca, não é ficar sem alimento, não é abster-se de carne. Certa vez Cristo disse que o que mata não é o que entra pela boca, mas o que sai do coração.A Bíblia tem 40 referências sobre o jejum e em Isaias há a indicação de que devemos fazer o jejum da língua.Esse é o que Deus gosta.

A idéia me deixou alerta. De início achei que era coisa fácil,, principalmente por não precisar fechar a boca para os alimentos. Mas descobri que tinha que fechar a boca para as más palavras, que não poderia olhar para aquela corpinho dengoso, de caminhar requebroso e dizer ou pensar malícias. Descobri que o jejum da língua era não dizer palavrão, nem mesmo quando apertava o dedo na porta do carro, era não contar piadinhas indecentes, maliciosas.

O preceito ficou difícil. O jejum da boca faz bem ao corpo, abaixa o colesterol, diminui a barriguinha, deixa o corpo mais ágil. É bom para a estética corporal. O jejum da língua fortalece o espírito, acalma as tentações e abre o coração para o Bem.

Contudo é muito mais difícil levar a cabo a abstinência dos palavrões e das malícias afloradas quando se está na rodinha de homens, contando piadas e exercendo o masculino poder de ser homem.