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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Meus Dois Amores

Tive uma grande alegria com a oportunidade de comemorar dois grandes amores, o amor do céu  no dia de Corpus Christie e o amor da terra no dia dos namorados
O amor do céu  me cobre de bênçãos e me ama de um modo infinito desde toda a eternidade; o amor da terra me cobre de beijos com uma ternura que teve inicio em um dia mas que jamais terá fim. O amor do céu me chama de filhinho e cuida de minha alma; o amor da terra me chama de amado e se preocupa com minha saúde.
Para o amor do céu eu dobro os joelhos em oração; para o amor da terra eu abro os braços para um longo abraço. O amor do céu está na raiz de minha fé e o amor da terra no vigor de minhas forças, um deu o seu sangue para me salvar, o outro me da a partilha diária de um longa caminhada.Este é serenidade como a brisa que antecede o vento, aquele é encantamento vivido a cada momento.
O amor do céu é a luz que me guia no caminho da verdade e o amor da terra é a mão firme que me ampara e ajuda na caminhada desse caminho. O amor do céu é total e basta a si mesmo, o amor da terra é imperfeito e necessita do meu amor para continuar existindo. Ambos são grandes e poderosos, um na grandeza infinita de Ser Deus e o outro na grandeza humana de ser esposa.
Um é o Deus que em mim criou o mundo e o outro é a companheira que comigo criou os filhos.
Um é o sol que aquece a terra e a inunda de luz, o outro é a candeia que ilumina a casa e aquece a família. O amor de Deus é infinito, não tem tempo mas está no tempo, não tem espaço mas está em toda parte, o outro é o amor da esposa que estando no tempo se torna infinito e vivendo num espaço se torna eterno.
E eu me sinto feliz por ter esses dois amores e fazer parte da vida de cada um deles.
Não consigo viver sem os dois e com eles construí uma vida e alicercei um lar, com eles eu me vi sendo religioso, amante, esposo e pai. Eu me realizei nessas duas vertentes, pois elas se misturam no maravilhoso mistério da vida.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Experimentar para conhecer

Há certos momentos ou certas épocas do ano em que minha casa fica cheia de gente, é o Natal, a passagem de ano, o carnaval. Pode ainda ser qualquer outra desculpa, como um simples aniversário, para que todos acorram para esta cidade e para nossa casa. Aí a rotina de ser apenas eu e minha esposa é quebrada. A casa fica cheia de sons, risos, músicas diferentes, brincadeiras. Não se tem hora para o banho, para café da manhã e nem para as refeições. Tudo fica alvoroçado. São momentos de muita alegria, de confidencias, de projetos. Os homens no quintal jogando um truquinho, bebericando uma cerveja e contando vantagens. As mulheres deitadas na nossa cama, todas juntas, mãe e filha e netas, colocando a fofoca em dia. A alegria e a felicidade brilham nos olhos de todos.

Meu neto vem da capital paulista e traz com ele um amigo que nunca veio ao interior, nunca viu uma galinha e não conhece um chouriço.

Lá em Cachoeirinha tudo era novidade para ele e se deslumbrava como uma criança no dia de Papai Noel. Meu neto foi seu cicerone, seu anfitrião e foi lhe mostrando as maravilhas da terra, aqui um pé de caqui, acolá a laranjeira, mais além as pereiras eretas e solenes, valentes guardiães com as lanças erguidas em posição de marcha. O rapaz tirava fotos alvoroçado com as descobertas como se fosse um novo bandeirante. As pitangas o encantaram. Nunca tinha visto aquelas frutinhas vermelhas parecendo pequenas abóboras e queria saber de seu sabor.Nenhuma explicação era elucidativa e só quando provou um fruto é que ficou conhecendo seu sabor.

A doçura cabocla da frutinha ativou sua papilas, encheu de sabor a boca e explodiu nos olhos maravilhados pelo encanto.

Conheceu pela experiência.

Não foram as palavras que lhe revelaram o sabor escondido , mas for o encontro com o fruto que o revelou.

Não poucas vezes procuramos o conhecimento de Deus pela literatura, pela decodificação de tantos teologias, pelo saber de muitas idéias e não percebemos que jamais iremos conhece-lo se não O experimentarmos por um contato pessoal e intimo, se não sentirmos o seu sabor dentro de nosso coração.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O Mistério da Saudade


O velho Mestre Arobiai caminhava por entre flores e arbustos de um campo aberto instruindo os discípulos sobre a vida e o amor.

Um discípulo perguntou:

- Mestre o que é a saudade?

Arobiai olhou para aqueles olhos límpidos e curiosos, agachou, colheu uma pequena flor silvestre e a ofereceu ao discípulo. Este olhou para a flor e para o Mestre e nada entendeu. Foi então que a sabedoria que mora no coração dos velhos falou:

- A saudade é como esta flor. Ela existe, não mais está presa ao vegetal em que nasceu, mas mesmo assim carrega dentro de si, a mesma seiva que a formou e lhe deu vida. Um pouco da seiva de vida ficou no arbusto em que ela estava, outro pouco está na flor colhida. O arbusto não tem mais a flor, mas a sente presente na seiva, como uma perna amputada que parece permanecer inteira; a flor não tem mais o arbusto, mas o sente, ainda, na seiva que ficou presa em si. A saudade está na ausência na mesma proporção em que a ausência está na saudade. Ambas vivem e se alimentam na mesma fonte.

O discípulo ficou pensativo a olhar a flor que sua mão segurava com delicadeza

Arobiai continuou:

- Olhe firme e demoradamente para este campo cheio de flores das mais variadas espécies e cor. Agora feche os olhos. Você não vê mais as flores, mas sabe que elas existem, que elas estão aí. Não é porque você não as vê que elas deixam de existir. As flores e o campo continuarão a estar aqui, continuarão a existir, embora você não possa vê-los. Se você abrir os olhos voltará a ver as mesmas flores. A mesma luz, o mesmo sol, as mesmas cores.

Assim é a saudade. Muitas vezes pensamos que perdemos pessoas e coisas e nos afligimos dizendo que estamos com saudade. Na verdade apenas estamos de olhos fechados. Um dia abriremos os olhos e perceberemos que tudo continua como antes, pois as pessoas que amamos e que partiram continuam , por um mistério de amor, junto de nós.

Um dia a saudade baterá à porta e devemos nos lembrar que estamos de olhos fechados, que caminhamos de olhos fechados, que não vemos o que queríamos ver; mas que há em nosso meio uma presença santa a silenciosa, persistente e indefinível.

Algumas vezes, Deus permite que sintamos essa presença .

Muitas vezes procuramos explicar porque alguém se foi tão de repente sem saber que não há explicação para os mistérios de Deus. Por isso sabemos que quem partiu continua presente como a seiva que ainda está na flor, ou como os olhos fechados no campo de flores. Mas acima de tudo sabemos que saudade é um exercício de fé, pois é um acreditar naquilo que não se vê.